Katrina
sentia-se fútil. Era do tipo de pessoa que tinha amigos, mas quando estava
longe deles, tornava-se vazia de novo. Depois de um tempo, até passou a achar
que eles eram apenas uma distração. Ela era a mudança. Mas toda vez que
resolvia mudar, algo sempre tinha que impedi-la.
Ela até
que gostava de companhia, mas preferia quando estava sozinha em algum canto.
Sem ninguém pra conversar, sem quem a influencie a fazer algo, pois só assim
ela poderia ser quem ela mesma queria. Quando estava isolada, vivia desenhando,
ouvindo suas bandas – elas iam desde as músicas clichês, até os mais derivados
do rock -, escrevia textos e mais textos e se sentia livre, como se não
precisasse obedecer regras de ninguém, nem fingir sem quem ela não era – e até
mesmo quem ela nunca foi.
Na
segunda-feira na escola, voltara a rotina anterior. Futilidade. Banalidade.
Nenhum conteúdo que acrescentasse em nada na vida dela. A única coisa que
estava sendo útil para ela nas últimas semanas, tem sido as aulas dos
professores – por incrível que pareça, quando Katrina parou realmente para
prestar atenção nas aulas, começou a perceber o quão interessante elas eram (as
aulas práticas eram as melhores) – e uma célula cristã na escola (tratava-se de
um grupo que se encontrava pelo menos três vezes na semana para falar sobre
Deus), a qual ela sempre poderia encontrar esperança ali, cada um era diferente
um do outro, mas apesar de o assunto se o mesmo, a essência, a esperança e o
amor ali sempre eram renovados.
- Cara, você
viu o mole que ele deu pra ela naquela festa? – Ouvia em algum canto da sala.
- Esse
fim de semana eu tenho umas dez festas pra ir, sei lá – Dizia uma das meninas
em outro canto.
Mas a
verdade é que ela também fazia parte dos fúteis. Ela tinha uma amiga que uma
vez discutindo com ela, dissera que Katrina não tinha personalidade própria.
Ela era muito influenciada pelos outros. Tudo que via os outros fazerem queria
fazer junto. E não é que o fato estava comprovado mesmo? Katrina não gostava de
admitir, mas ela era uma fútil influenciada. Por isso gostava tanto de ficar
sozinha, porque quando não tinha ninguém por perto, podia ser quem ela era de
verdade. Sem que ninguém julgasse os seus gostos, sem que ninguém falasse mal
dela, sem que fosse motivo de gozação.
O dia
preferido da semana era a sexta-feira, além das melhores aulas na escola serem
na sexta, era o dia de ir para o curso. Lá ela não tinha ninguém. Lá, ela
poderia ficar sozinha consigo mesma. Fazia computação gráfica. Fotografia e
photohop – é um editor de fotos – eram alguns dos hobbies mais prediletos de
Katrina. Entretanto, a melhor parte é que ela podia ficar. Sozinha. Sem.
Ninguém. Que tipo de pessoa gostaria de ficar sozinha? Que tipo de gente
prefere um bom livro a um monte de gentinha fútil, que só sabe falar sobre homens,
mulheres, maquiagem e futebol? A melhor parte do dia era a tarde. O curso.
Porque lá, ela era quem ela gostava de ser. Apesar de estar. Sozinha.
No
intervalo do curso, Katrina sempre pegava seu livro e ia comer algo, porque
almoçava pouco em casa e com isso, acabava ficando com fome. Então ia até uma
lanchonete que havia ali perto, comia algo e depois – sozinha- lia algum de
seus livros com enredos fúteis. Era a única coisa fútil a qual ela gostava de
ter por perto. Era impossível tentar entender Katrina.
Os
finais de semana eram sempre os mesmos: ou ela saía com os pais, ou ela via
algum amigo seu (em casa mesmo, sua mãe não era nada liberal), ou ela ficava –
novamente – sozinha, lendo ou estudando. Ah, claro, aos domingos de manhã e a
noite, ia na igreja. Ela depositava total fé em Deus.
Katrina
na verdade, nunca foi alguém especial. Tentava chamar a atenção de seus amigos,
mas assim que eles tinham uma brecha, se esqueciam dela. Cansou de chorar
porque se sentia isolada ou esquecida pelas pessoas e ás vezes, até mesmo seus
pais não conseguiam compreendê-la. Nunca foi alguém com personalidade para ser
lembrada por alguém. Nunca teve muita dificuldade para fazer amigos, mas também
nunca teve facilidade para mantê-los. A vida dela sempre fora monótona, nada mudava,
nada acontecia. Ela rendia muito mais sozinha e só vira a descobrir isso nas
últimas semanas, mas por medo, sempre mantivera a vida na mesma: os mesmos
amigos fúteis, os mesmos grupinhos vazios, as mesmas conversas inúteis.
Ela
olhava para os lados e só via gente se perdendo. Pelas drogas, pelas bebidas,
pelas festinhas. Ninguém mais falava sobre livros, ninguém mais discutia alguma
música com conteúdo, ninguém mais valorizava o amor à moda antiga, ninguém mais
nada. E se tornara uma deles. Mas como mudar? Quando mudar? Isolando-se.
O
furacão Katrina, anda destruindo pensamentos que a proíbem de pensar, rompe
pessoas e assuntos fúteis e os leva pra bem longe. Corrompe o que trás a ela
dores e depois some. Só aparece de novo quando bem tiver vontade. Sozinho. O
que é forte não precisa de companhia para se manter vivo.
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