quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O furacão Katrina


Katrina sentia-se fútil. Era do tipo de pessoa que tinha amigos, mas quando estava longe deles, tornava-se vazia de novo. Depois de um tempo, até passou a achar que eles eram apenas uma distração. Ela era a mudança. Mas toda vez que resolvia mudar, algo sempre tinha que impedi-la.
Ela até que gostava de companhia, mas preferia quando estava sozinha em algum canto. Sem ninguém pra conversar, sem quem a influencie a fazer algo, pois só assim ela poderia ser quem ela mesma queria. Quando estava isolada, vivia desenhando, ouvindo suas bandas – elas iam desde as músicas clichês, até os mais derivados do rock -, escrevia textos e mais textos e se sentia livre, como se não precisasse obedecer regras de ninguém, nem fingir sem quem ela não era – e até mesmo quem ela nunca foi.

Na segunda-feira na escola, voltara a rotina anterior. Futilidade. Banalidade. Nenhum conteúdo que acrescentasse em nada na vida dela. A única coisa que estava sendo útil para ela nas últimas semanas, tem sido as aulas dos professores – por incrível que pareça, quando Katrina parou realmente para prestar atenção nas aulas, começou a perceber o quão interessante elas eram (as aulas práticas eram as melhores) – e uma célula cristã na escola (tratava-se de um grupo que se encontrava pelo menos três vezes na semana para falar sobre Deus), a qual ela sempre poderia encontrar esperança ali, cada um era diferente um do outro, mas apesar de o assunto se o mesmo, a essência, a esperança e o amor ali sempre eram renovados.

- Cara, você viu o mole que ele deu pra ela naquela festa? – Ouvia em algum canto da sala.

- Esse fim de semana eu tenho umas dez festas pra ir, sei lá – Dizia uma das meninas em outro canto.

Mas a verdade é que ela também fazia parte dos fúteis. Ela tinha uma amiga que uma vez discutindo com ela, dissera que Katrina não tinha personalidade própria. Ela era muito influenciada pelos outros. Tudo que via os outros fazerem queria fazer junto. E não é que o fato estava comprovado mesmo? Katrina não gostava de admitir, mas ela era uma fútil influenciada. Por isso gostava tanto de ficar sozinha, porque quando não tinha ninguém por perto, podia ser quem ela era de verdade. Sem que ninguém julgasse os seus gostos, sem que ninguém falasse mal dela, sem que fosse motivo de gozação.

O dia preferido da semana era a sexta-feira, além das melhores aulas na escola serem na sexta, era o dia de ir para o curso. Lá ela não tinha ninguém. Lá, ela poderia ficar sozinha consigo mesma. Fazia computação gráfica. Fotografia e photohop – é um editor de fotos – eram alguns dos hobbies mais prediletos de Katrina. Entretanto, a melhor parte é que ela podia ficar. Sozinha. Sem. Ninguém. Que tipo de pessoa gostaria de ficar sozinha? Que tipo de gente prefere um bom livro a um monte de gentinha fútil, que só sabe falar sobre homens, mulheres, maquiagem e futebol? A melhor parte do dia era a tarde. O curso. Porque lá, ela era quem ela gostava de ser. Apesar de estar. Sozinha.

No intervalo do curso, Katrina sempre pegava seu livro e ia comer algo, porque almoçava pouco em casa e com isso, acabava ficando com fome. Então ia até uma lanchonete que havia ali perto, comia algo e depois – sozinha- lia algum de seus livros com enredos fúteis. Era a única coisa fútil a qual ela gostava de ter por perto. Era impossível tentar entender Katrina. 
 
Os finais de semana eram sempre os mesmos: ou ela saía com os pais, ou ela via algum amigo seu (em casa mesmo, sua mãe não era nada liberal), ou ela ficava – novamente – sozinha, lendo ou estudando. Ah, claro, aos domingos de manhã e a noite, ia na igreja. Ela depositava total fé em Deus.

Katrina na verdade, nunca foi alguém especial. Tentava chamar a atenção de seus amigos, mas assim que eles tinham uma brecha, se esqueciam dela. Cansou de chorar porque se sentia isolada ou esquecida pelas pessoas e ás vezes, até mesmo seus pais não conseguiam compreendê-la. Nunca foi alguém com personalidade para ser lembrada por alguém. Nunca teve muita dificuldade para fazer amigos, mas também nunca teve facilidade para mantê-los. A vida dela sempre fora monótona, nada mudava, nada acontecia. Ela rendia muito mais sozinha e só vira a descobrir isso nas últimas semanas, mas por medo, sempre mantivera a vida na mesma: os mesmos amigos fúteis, os mesmos grupinhos vazios, as mesmas conversas inúteis. 

Ela olhava para os lados e só via gente se perdendo. Pelas drogas, pelas bebidas, pelas festinhas. Ninguém mais falava sobre livros, ninguém mais discutia alguma música com conteúdo, ninguém mais valorizava o amor à moda antiga, ninguém mais nada. E se tornara uma deles. Mas como mudar? Quando mudar? Isolando-se. 

O furacão Katrina, anda destruindo pensamentos que a proíbem de pensar, rompe pessoas e assuntos fúteis e os leva pra bem longe. Corrompe o que trás a ela dores e depois some. Só aparece de novo quando bem tiver vontade. Sozinho. O que é forte não precisa de companhia para se manter vivo.

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